
O resultado provisório da prova discursiva da ANSA, organizado a partir das listas publicadas pelo Cebraspe, revela um dado expressivo: 24,02% dos registros de classificação foram eliminados por não atingirem a nota mínima na P3. Em números absolutos, foram 271 eliminações em 1.128 registros de sublista. Quando se considera a contagem por candidato único, sem duplicar quem aparece em mais de uma modalidade de concorrência, o levantamento aponta 245 candidatos eliminados.
Esse dado é relevante porque a prova discursiva, no modelo Cebraspe, não funciona apenas como etapa classificatória. Ela também possui caráter eliminatório. No caso da ANSA, o candidato precisava atingir pelo menos 10,00 pontos na P3. Quem ficou abaixo desse patamar foi eliminado e deixou de ter classificação no processo seletivo, ainda que tivesse alcançado pontuação suficiente nas objetivas para ter a discursiva corrigida.
A média geral da P3 foi 12,61 pontos, com mediana de 12,76. Isso indica que a maioria dos candidatos que permaneceu na disputa conseguiu superar o mínimo com alguma margem. Contudo, entre os eliminados, a média foi de apenas 6,89 pontos, o que mostra que uma parte significativa das reprovações não ocorreu por diferença mínima. Em outras palavras, não se trata apenas de candidatos que “bateram na trave”; muitos ficaram tecnicamente distantes do corte mínimo.
A distribuição das notas confirma essa leitura. Foram 13 notas zero, 38 notas entre 0,01 e 4,99 e 220 notas entre 5,00 e 9,99. Essa última faixa é a mais relevante do ponto de vista recursal e pedagógico, porque reúne candidatos que provavelmente apresentaram algum desenvolvimento textual, mas não conseguiram atingir o nível mínimo exigido pela banca. É nesse grupo que a análise individualizada do espelho, dos critérios de conteúdo, da estrutura textual e dos descontos de linguagem pode fazer maior diferença.
Por tipo de lista, a ampla concorrência concentrou o maior volume absoluto de eliminações: 205 eliminados em 874 registros, com taxa de 23,46%. A lista de pessoas negras teve 52 eliminados em 211 registros, taxa de 24,64%, muito próxima da média geral. A lista de pessoas com deficiência registrou 13 eliminações em 40 registros, taxa de 32,50%. Já a lista de pessoas quilombolas teve apenas 3 registros, com 1 eliminação, o que gera taxa de 33,33%, mas com base estatística muito pequena.
Por cargo, os maiores percentuais de eliminação apareceram em áreas técnicas de nível médio. Projetos, Construção e Montagem – Mecânica teve taxa de 43,33%; Manutenção – Instrumentação, 41,18%; e Manutenção – Mecânica, 39,06%. Esses números indicam que a discursiva foi um filtro forte justamente nos cargos em que muitos candidatos costumam concentrar a preparação na prova objetiva, subestimando a necessidade de domínio textual, organização da resposta e aderência ao padrão esperado.
Também chamam atenção os cargos de Enfermagem, com 34,78% de eliminação, e Manutenção – Calderaria, com 34,69%. Em ambos, a média dos eliminados ficou baixa: 6,14 em Enfermagem e 5,74 em Calderaria. Isso sugere que a dificuldade não esteve apenas no detalhe formal, mas possivelmente na combinação entre conteúdo insuficiente, abordagem incompleta, problemas de estrutura e perdas na modalidade escrita.
Na outra ponta, Advocacia e Medicina do Trabalho não tiveram eliminados por nota mínima na discursiva. Administração e Contabilidade também apresentaram taxas muito baixas, com 3,12% e 3,45%, respectivamente. Esses cargos tiveram médias de P3 mais elevadas, acima de 14 pontos, sinalizando melhor desempenho discursivo médio.
O dado mais importante para o candidato é simples: a discursiva decidiu o concurso para muita gente. A objetiva colocou o candidato dentro da zona de correção, mas a P3 retirou da disputa quase um quarto dos registros analisados. Isso reforça uma verdade que se repete em concursos do Cebraspe: não basta saber o conteúdo; é necessário saber transformar esse conteúdo em resposta tecnicamente aderente, objetiva, estruturada e linguisticamente segura.
Para quem foi eliminado, a primeira providência deve ser uma análise criteriosa do espelho de correção. É preciso verificar se a banca aplicou corretamente os critérios, se houve subavaliação de conteúdo, se algum trecho foi ignorado, se a resposta atendeu parcialmente ao padrão esperado e se há margem técnica para pedido de majoração. Recursos genéricos tendem a fracassar. O recurso eficaz é aquele que demonstra, com precisão, onde o texto cumpriu o comando e por que a nota atribuída não reflete adequadamente o desempenho do candidato.
Para quem ainda vai enfrentar discursivas do Cebraspe, a lição é ainda mais direta: a preparação precisa incluir treino de estrutura, domínio do padrão de resposta, gestão de linhas, clareza argumentativa e controle de erros formais. A prova discursiva não é um detalhe posterior à objetiva. Ela é uma etapa decisiva, com potencial real de eliminação, reposicionamento e aprovação.
O resultado da ANSA mostra, de forma estatística, o que a prática já revelava: quem negligencia a discursiva corre o risco de ser eliminado mesmo depois de sobreviver à objetiva. Em concursos competitivos, a redação técnica não é acessório. É estratégia de classificação e, muitas vezes, condição mínima de permanência no certame.

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